
Café e envelhecimento saudável: o que esse estudo diz sobre demência
Por: Mirian Ferreira
Se você é coffee lover, provavelmente já defendeu o café com paixão: pelo aroma, pelo ritual e pelo prazer de uma xícara bem feita. Agora, tem um motivo extra para prestar atenção, não por promessas milagrosas, mas porque um estudo robusto sugere que o café pode ser um aliado do envelhecimento saudável.
Pesquisadores da Universidade de Harvard e do MIT analisaram dados de um grupo enorme de pessoas por décadas e publicaram os resultados na JAMA. A conclusão é animadora: o consumo regular de café com cafeína apareceu associado a menor risco de demência, além de sinais positivos em atenção e memória.
Vamos ao que importa: o que o estudo observou, como interpretar e o que isso pode significar para quem ama café.

O que a pesquisa encontrou (sem exageros)
O estudo acompanhou cerca de 130 mil pessoas por quase 40 anos. Nesse período, 11.033 participantes desenvolveram demência.
Ao comparar grupos com padrões diferentes de consumo, os pesquisadores observaram que:
- Quem estava no grupo de maior consumo de café (cerca de 2 a 3 xícaras por dia, com 237 ml cada) apresentou 18% menor risco de demência em comparação ao grupo de menor consumo.
- Os resultados também foram positivos para chá: consumo diário de 1 a 2 xícaras foi associado a 14% menor risco de demência.
Além do risco de demência, houve associação com:
- menor prevalência de declínio cognitivo subjetivo (aquela sensação de “minha memória piorou”);
- pontuações ligeiramente melhores em testes de memória verbal e atenção.
Para um coffee lover, isso é interessante porque não fala só de “energia”. Fala de cognição ao longo do tempo.
“Então café previne demência?” Calma: o próprio estudo pede cautela
O autor sênior, Daniel Wang (Harvard), faz um alerta importante: mesmo com resultados encorajadores, o tamanho do efeito é pequeno. E, principalmente, isso não substitui outras formas de proteção do cérebro.
A leitura mais honesta é esta: café (ou chá com cafeína) pode ser uma peça do quebra-cabeça, e não o quebra-cabeça inteiro.
Isso é ótimo, porque mantém o estudo no lugar certo: como evidência útil, não como promessa.
Por que a cafeína pode estar envolvida (segundo as hipóteses citadas)
O artigo descreve hipóteses biológicas para explicar os achados. Em linguagem direta:
- A cafeína pode bloquear receptores de adenosina A1 e A2A no cérebro. Isso ajuda a manter a comunicação entre neurônios.
- Essa ação pode se relacionar com menor acúmulo de beta-amiloide, proteína associada ao Alzheimer.
- Pesquisas experimentais citadas sugerem que a cafeína pode interferir em processos ligados ao desenvolvimento da doença, incluindo enzimas relacionadas à produção de beta-amiloide, além de apoiar o funcionamento das células nervosas.
- O texto também menciona papel anti-inflamatório no cérebro e possíveis relações com melhor sensibilidade à insulina e menor risco de diabetes tipo 2 (que é um fator de risco importante para demência).
Nada disso prova causa sozinho. Mas ajuda a entender por que a ciência considera o tema plausível.
Não é só cafeína: o “pacote café” também entra na história
Um ponto que deixa o estudo ainda mais interessante para quem ama café: ele não reduz tudo a um comprimido de cafeína.
Segundo Luiz Antônio Machado César (InCor/USP), os efeitos positivos estão ligados ao café como um todo, que contém compostos fenólicos com ação protetora e antioxidante.
E ele reforça uma mensagem essencial: não faz sentido trocar café por cápsulas de cafeína esperando o mesmo resultado.
O artigo também cita compostos do café, como polifenóis e ácido clorogênico. E, no caso do chá, menciona catequinas, EGCG e L-teanina, associados a benefícios antioxidantes e vasculares e possível neuroproteção.
Café descafeinado: por que os resultados foram diferentes?
Aqui o estudo é bem cuidadoso.
Ele observa que os efeitos positivos apareceram apenas entre participantes que consumiam bebidas com cafeína. E, em alguns casos, alto consumo de descafeinado foi associado a maior percepção de declínio cognitivo.
Mas isso não significa que o descafeinado faça mal.
A explicação levantada pelos autores é de bom senso: muitas pessoas escolhem descafeinado por condições pré-existentes (como ansiedade, problemas de sono ou questões cardíacas), e essas condições, por si só, podem se associar a alterações cognitivas.
Ou seja: pode ser o perfil de saúde que leva ao descafeinado — não o descafeinado que leva ao problema.
O que esse estudo sugere para o coffee lover, na prática
Sem inventar recomendações fora do que foi descrito, dá para tirar algumas ideias práticas alinhadas ao texto:
- Se você já consome café e se sente bem, o padrão de 2 a 3 xícaras/dia (237 ml) foi o que apareceu no grupo com menor risco observado.
- Se você prefere variar, chá com cafeína também apareceu associado a menor risco (na faixa de 1 a 2 xícaras/dia).
- Se você opta por descafeinado por necessidade, o estudo não prova dano — e a própria pesquisa sugere que existe viés de saúde prévia nessa escolha.
O mais importante: o estudo trata de tendências em população, não de regra individual.
Leia também: Estudo de 22 mil pessoas mostra benefícios do café quente para o intestino
Metodologia: por que esse estudo chama atenção
A neurologista Elisa Resende (ABN) destaca o que muita gente procura em ciência: tamanho e consistência.
O estudo acompanhou 131.821 pessoas sem demência, câncer ou Parkinson no início, usando duas grandes bases:
- Nurses’ Health Study (mulheres)
- Health Professionals Follow-up Study (homens)
Os participantes eram profissionais de saúde, com maioria mulheres (65,7%) e pessoas brancas.
O consumo foi acompanhado por questionários a cada 2 a 4 anos. Diagnósticos de demência vieram de registros de óbito e relatos médicos confirmados por revisão clínica. O declínio subjetivo foi avaliado por autorrelato.
Esse tipo de desenho não é perfeito (porque é observacional), mas é forte para observar padrões ao longo de décadas.
Disclaimer (segurança primeiro)
Mesmo que você ame café, vale cuidado extra se você:
- está grávida ou amamentando;
- tem ansiedade, insônia ou é muito sensível à cafeína;
- tem arritmia ou palpitações;
- usa medicamentos que podem interagir com cafeína (isso varia muito; confirme com seu médico).
Se algo piora (sono, ansiedade, palpitação), o melhor ajuste costuma ser reduzir dose e adiantar o horário.
Conclusão
Se você é coffee lover, esse estudo traz uma boa notícia, com a dose certa de cautela. Ao acompanhar cerca de 130 mil pessoas por quase 40 anos, pesquisadores de Harvard e do MIT, com publicação na JAMA, observaram que o consumo de café com cafeína (especialmente na faixa de 2 a 3 xícaras de 237 ml por dia) esteve associado a 18% menor risco de demência, além de sinais positivos em atenção e memória verbal.
Ainda assim, o próprio autor do estudo reforça que o efeito é pequeno e não substitui o que realmente protege o cérebro ao longo da vida: sono de qualidade, atividade física, alimentação equilibrada, controle de pressão e diabetes, e acompanhamento médico.
A leitura mais inteligente é esta: o café pode ser uma peça do quebra-cabeça do envelhecimento saudável. E, para quem ama a bebida, isso significa manter o ritual — mas com consumo consciente, respeitando a resposta do seu corpo e as orientações de segurança.
Perguntas frequentes
Esse estudo prova que o café previne demência?
Não. O estudo mostra uma associação entre consumo de café com cafeína e menor risco observado de demência. Isso não é o mesmo que provar causa e efeito. Ainda assim, por ser um acompanhamento grande e longo, é um achado relevante.
Chá também entrou nos resultados?
Sim. O consumo diário de 1 a 2 xícaras de chá foi associado a 14% menor risco de demência no estudo.
Precisa ser café com cafeína?
Neste estudo, os efeitos positivos foram observados apenas entre participantes que consumiam bebidas com cafeína.
Então vale tomar cápsula de cafeína em vez de café?
O artigo traz a visão de especialista de que não é só a cafeína isolada. O café contém outros compostos (como fenólicos e antioxidantes) que podem atuar em conjunto. Ou seja, não faz sentido “trocar” café por cápsula esperando o mesmo efeito.
Como a cafeína poderia ajudar o cérebro (segundo as hipóteses citadas)?
O estudo menciona hipóteses como:
- bloqueio de receptores de adenosina (A1 e A2A);
- possível relação com redução de processos ligados ao acúmulo de beta-amiloide;
- efeitos em inflamação e em fatores metabólicos, como sensibilidade à insulina.
São hipóteses baseadas em literatura experimental citada, não uma prova definitiva.
Posso aumentar muito meu consumo para “potencializar” o efeito?
Não é uma boa leitura do estudo. O autor sênior alerta que o efeito é pequeno e que existem várias estratégias mais importantes para proteger a cognição. Além disso, aumentar demais pode piorar sono, ansiedade e palpitações em pessoas sensíveis.
Qual é a mensagem principal do estudo para quem ama café?
Que o café com cafeína, em consumo regular e moderado, pode ser uma peça do envelhecimento saudável. Mas ele não substitui hábitos fundamentais e não deve ser usado como “atalho” para prevenir demência.
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Mirian Ferreira Sou uma jornalista com mais de 30 anos de carreira e apaixonada por café e aqui neste blog uso meu conhecimento técnico e meu gosto pela escrita para falar com outros coffee lovers, mostrando tudo o que acho interessante no universo do café.
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